O Peso da Inutilidade e a Ilusão de Ser Indispensável
Por: José A. Nogueira
Uma das piores sensações que se pode experimentar no tecido social, é a percepção de que já não temos utilidade.
Quando passamos a ser ignorados, o impacto é esmagador e implacável.
O problema central é que nos alimentamos de uma soberba sutil: nos sentimos tão necessários a ponto de acreditar que o mundo gravita ao nosso redor. Esquecemos, porém, que o outro tem uma capacidade formidável de adaptação.
As pessoas recriam suas realidades, agregam novos afetos e simplesmente tocam a vida adiante, como se nenhuma ausência fosse radical o suficiente para parar o tempo.
Descobrir que a nossa utilidade é efêmera, provoca a vertigem de pisar no vazio. É uma experiência avassaladora.
Para quem alimenta a ilusão de ser indispensável, o despertar desse sonho costuma se converter em caos e dor profunda.
Diante da dinâmica da nossa época, o verdadeiro aprendizado talvez seja compreender a utilidade sob uma nova ótica: a de adquirir forças para lutar pela própria sobrevivência. Isso exige um certo requinte de egoísmo saudável, essencial para digerir as mudanças trazidas pelas novas gerações.
Como bem pontua a psicanalista Maria Lúcia Homem, "derramar-se menos" sobre os outros e focar mais na própria existência talvez seja o ato que, paradoxalmente, torna o mundo um lugar melhor.