Por: José A. Nogueira
O que há por trás da depressão?
A depressão não é simplesmente estar triste. Todos nós atravessamos momentos de tristeza, frustração, perdas e desânimo. Fazem parte da experiência humana. A depressão, porém, pode envolver algo diferente: um sofrimento persistente que modifica a maneira como a pessoa percebe a si mesma, os outros e o próprio mundo.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 332 milhões de pessoas vivam com depressão no mundo. A condição pode atingir pessoas de diferentes idades e contextos sociais e pode comprometer relacionamentos, trabalho, estudos e outras dimensões da vida.
No Brasil, os dados também revelam a dimensão do problema. A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE estimou que, em 2019, 16,3 milhões de brasileiros com 18 anos ou mais haviam recebido diagnóstico de depressão por um profissional de saúde mental, o equivalente a 10,2% da população adulta pesquisada. A proporção foi maior entre mulheres (14,7%) do que entre homens (5,1%).
Dados mais recentes do Vigitel, que acompanha a população adulta das capitais brasileiras, apontaram aumento do diagnóstico médico autorreferido de depressão de 10,6% em 2020 para 12,3% em 2023. Como se trata de uma pesquisa realizada nas capitais, esse número não deve ser confundido com uma estimativa para toda a população brasileira.
Esses números ajudam a dimensionar o problema, mas não conseguem traduzir a experiência singular de quem sofre.
Depressão não é apenas tristeza. A depressão pode se manifestar por humor deprimido, perda de interesse ou prazer, cansaço, alterações do sono e do apetite, dificuldades de concentração, sentimentos de culpa ou baixa autoestima e desesperança. Em alguns casos, podem surgir pensamentos relacionados à morte ou ao suicídio.
Essas manifestações não aparecem necessariamente da mesma maneira em todas as pessoas. Por isso, não é adequado transformar uma lista de sintomas em um instrumento de autodiagnóstico. O diagnóstico deve considerar a história da pessoa, a duração e a intensidade dos sintomas e o impacto que eles produzem em sua vida. A própria OMS diferencia a depressão das oscilações comuns de humor e das respostas emocionais passageiras diante das dificuldades da vida.
O que pode estar relacionado à depressão?
Não existe uma única explicação para a depressão. Ela pode estar relacionada a uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Experiências de abuso, perdas importantes, traumas e outros acontecimentos estressantes podem aumentar a vulnerabilidade de algumas pessoas, mas não é correto afirmar que toda depressão seja causada por um acontecimento externo específico.
Uma separação pode produzir sofrimento.
Uma perda pode produzir sofrimento.
O desemprego pode produzir sofrimento.
Uma mudança brusca na vida pode produzir sofrimento.
Pessoas diferentes podem reagir de maneiras completamente distintas diante de acontecimentos semelhantes. É justamente nessa singularidade que uma escuta cuidadosa se torna importante.
Uma perspectiva psicanalítica
Para a psicanálise, o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas pela observação de seus sintomas. É preciso considerar a história daquele sujeito.
O que essa perda representa para ele?
O que foi perdido?
Que lugar aquela pessoa, relação ou situação ocupava em sua vida?
Por que determinadas experiências parecem produzir sofrimento tão intenso?
Por que alguns conflitos retornam, mesmo quando acreditamos já tê-los superado?
Essas perguntas não pretendem substituir a avaliação médica ou psicológica. Elas apontam para outra dimensão: a possibilidade de escutar o sujeito para além do rótulo que recebeu.
Freud, ao discutir a melancolia, abriu uma importante perspectiva para pensar a relação entre perda, identificação e sofrimento psíquico. A partir daí, a psicanálise desenvolveu diferentes caminhos para compreender aquilo que acontece quando uma perda ou um conflito atravessa profundamente a vida de uma pessoa.
Não se trata, portanto, de procurar uma causa única para a depressão. Trata-se de escutar o modo singular como cada pessoa vive aquilo que lhe acontece.
Quando o sofrimento começa a ocupar toda a vida
Uma pessoa deprimida pode continuar trabalhando, cuidando da família e cumprindo suas obrigações. Por fora, pode parecer que tudo continua funcionando.
Por dentro, porém, a experiência pode ser completamente diferente.
Aquilo que antes despertava interesse pode perder o sentido. Conversar pode se tornar cansativo. Encontrar pessoas pode parecer um esforço. O futuro pode deixar de ser percebido como possibilidade. Até mesmo aquilo que antes proporcionava prazer pode perder sua importância.
É nesse ponto que precisamos olhar para o sofrimento com seriedade. Não se trata de dizer simplesmente: “Isso é falta de força de vontade.” Nem de acreditar que basta: “pensar positivo.”
O sofrimento psíquico não desaparece porque alguém decidiu ignorá-lo.
Psicanálise, psicologia e psiquiatria
O cuidado em saúde mental pode envolver diferentes profissionais e diferentes formas de tratamento.
A OMS reconhece tratamentos psicológicos eficazes para a depressão e indica que, dependendo da gravidade e das circunstâncias, medicamentos também podem fazer parte do cuidado. Em quadros moderados ou graves, a combinação de intervenções psicológicas e medicamentosas pode ser indicada. Por isso, buscar ajuda não significa necessariamente escolher entre um profissional e outro.
Em determinadas situações, o acompanhamento de um psiquiatra pode ser necessário. Em outras, a psicoterapia ou a psicanálise pode ocupar um lugar importante. E, em alguns casos, diferentes profissionais podem atuar conjuntamente.
O mais importante é que a pessoa não permaneça sozinha diante de um sofrimento que esteja comprometendo sua vida.
Escutar o sujeito por trás do diagnóstico
Um diagnóstico pode ser importante para orientar o cuidado, mas ele não conta toda a história de uma pessoa. Antes da depressão existe um sujeito. Existe uma história. Existem relações, perdas, desejos, conflitos, experiências, expectativas e formas particulares de lidar com a vida. É essa singularidade que também precisa ser escutada.
A psicanálise oferece um espaço no qual a pessoa pode falar sobre aquilo que vive, inclusive sobre aquilo que ainda não consegue compreender. Não se trata de oferecer respostas prontas. Trata-se de construir, por meio da palavra e da escuta, a possibilidade de compreender algo daquilo que produz sofrimento.
Quando procurar ajuda?
Se sentimentos de tristeza, vazio, perda de interesse, desesperança ou outros sinais de sofrimento permanecem por um período prolongado e começam a interferir na vida cotidiana, é importante procurar avaliação de um profissional de saúde.
E quando aparecem pensamentos de morte ou de suicídio, a situação exige atenção imediata e ajuda profissional. A depressão está associada a um risco aumentado de suicídio, mas existem tratamentos eficazes e possibilidades de cuidado.
Não é preciso esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar ajuda.
Um espaço para falar sobre o que você está vivendo
Talvez você tenha chegado até este texto porque reconheceu alguma coisa da sua própria experiência. Talvez esteja passando por uma perda. Talvez esteja cansado de sentir que nada mais produz o mesmo sentido. Talvez esteja tentando compreender por que determinadas dores continuam presentes, mesmo depois de tanto tempo. Ou talvez você simplesmente sinta que precisa falar.
A psicanálise pode oferecer um espaço de escuta para que essas questões possam ser colocadas em palavras e pensadas a partir da singularidade de cada história.
Se você sente que este pode ser um momento para falar sobre aquilo que está vivendo, estou à disposição para ouvi-lo. Entre em contato comigo pelo botão do WhatsApp logo abaixo e conheça meu trabalho como psicanalista.
Fontes
Organização Mundial da Saúde — Depressive disorder (depression), atualização de 29 de agosto de 2025.
IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde 2019.
Ministério da Saúde — Vigitel 2006–2023 / indicadores de morbidade referida.
Ministério da Saúde — informações sobre depressão.