Por: José A. Nogueira
Esse artigo saiu em primeira mão na revista Psique Ciência e Vida e depois no Portal Sinapsys News com essa edição revisada para 2026.
Segundo o SIM, Sistema de Informações sobre Mortalidade no Brasil, CVV*– Centro de Valorização à Vida e o Ministério da Saúde, em parceria com a Folha de São Paulo, a cada dia, ocorrem cerca de 45 mortes no Brasil. São 16.446 mortes por suicídio em 2024.
A taxa estimada para 2024 e com projeções para 2025 gira em torno de 6,8 a 7,0 óbitos para cada 100 mil habitantes. Diferente da tendência global, (onde houve uma queda de 36%), as Américas e o Brasil seguem em uma trajetória de aumento. No Brasil, o crescimento foi de 43% na última década.**
Assunto sério que deve ser considerado como uma prioridade todos os dias em nosso país, já que o índice da prática do auto extermínio é tão alto no Brasil.
Bom; para abordarmos o assunto, vamos tentar falar abertamente sobre ele e tratar dos aspectos consideravelmente imediatos, tais como: principais motivos e pressupostos motivacionais; tipologias emergentes e subsequentes e; métodos de prevenção, abordagem e tratamento do problema.
Dentre os principais motivos causadores do suicídio no país, podemos destacar:
1. A absorção do objeto para dentro do sujeito***
Para a filosofia, o objeto é tudo aquilo que está fora de alguém, do sujeito. Já para a psicanálise, o objeto, pode ser também, incluído dentro do sujeito. Isso se dá, através da absorção do conteúdo de fora para dentro. Aquele outro que insistimos alocar, hospedar ou receber e acolher dentro de nós mesmos.
Lacan diz que o sujeito é “falado antes de nascer”, ou seja , antes mesmo de existir biologicamente, o bebê já é inserido no campo do desejo e da linguagem dos pais. O inconsciente da criança, assim começa a se estruturar a partir desse desejo do Outro (da mãe, do pai, ou de quem o espera). Isso já descreve o poder que gira em torno desse objeto do desejo. Em caráter último, a opinião, a voz, os ideais e as exigências fora do comum, daqueles que estão em nossa volta e fora de nós. Opiniões e ideias que se integram ao nosso Aparelho Psíquico e que nos atormenta, nos angustia, na finalidade que possamos cumprir todas as expectativas, desconsiderando que temos nossos próprios pensamentos, ideologias e perspectivas.****
Essa força de expressão do outro que costumamos acolher e que nos faz sentir responsáveis o tempo todo por corresponder, é uma das maiores causas da depressão, da angústia e da ansiedade que costumam promover um ambiente adequado para a pratica incontrolável do autoextermínio. São misto de baixa autoestima, hipossuficiência e sérias distorções sobre o juízo que o sujeito faz sobre si mesmo.
O medo de dizer não e este número considerável e excessivo de exigências a serem cumpridas, também seria a maneira mais clássica de promoção dessa baixa autoestima. Tudo isso envolve o pensamento de um indivíduo suicida.
2. A intolerância e a sensação de inabilidade e incapacidade no mundo
Neste caso, o sujeito, vítima de um auto extermínio em potencial, desaprovado em si mesmo por tudo o que faz ou julgado imperfeito, dadas circunstâncias de um Super Ego Punidor - “idealização interna e pessoal” – julga-se incompetente e que tudo o que faz para se destacar, ainda é pouco, gerando uma sobrecarga emocional que torna o sujeito insuficiente, inserido numa condição em que toda tarefa seja impossível de ser cumprida ou alcançada, gerando estresse, ansiedade e desespero. Estas são características de indivíduos que, sofreram na infância com pais, tios, avós ou cuidadores extremante exigentes.*****
3. Casos mais graves de psicopatologia clínica não tratadas adequadamente
Casos graves e não assistidos por profissionais qualificados, como por exemplo, as psicoses (sofrimento mental causado pela ruptura entre a realidade e a idealização), incluindo a expressão mais comum da doença como, a esquizofrenia que, inclui delírios, mania e paranoia, poderão incluir esse objeto introjetado que falamos anteriormente no eu, causando sofrimento, alienação social, até o desfecho mais comum da doença: a pratica suicida.******
4. A idade e as características recorrentes de cada fase do desenvolvimento
Outro fator causador comum de suicídio, está vinculado a idade dos indivíduos e a determinadas crises que se apresentam ao longo da vida. Entre os 15 e 25 anos de idade, os indivíduos passam a planejar e sua vida, tentam ingressar nas faculdades e seguir uma carreira acadêmica. A falta de perspectivas, podem levar ao vício de entorpecentes e ao descontrole com relação ao uso das tecnologias que, podem gerar mecanismos de dependência emocional e a promoção da baixo autoestima. São, também, situações causadoras de alto índice de estresse e consequentemente da evolução do estado depressivo. Tais avanços tecnológicos, requer de certa maneira, total disciplina, o que não se tem visto, mesmo entre indivíduos na fase adulta que, tem se deprimido cada vez mais, através de comparações feitas por eles, entre a própria vida e a vida dos outros pelos acessos as redes sociais.
Entre os 45 e 55 anos de idade, período em que o indivíduo se depara com mudanças tais como: a perda de substâncias naturais no organismo; mudança de hábitos e alimentação; visitas frequentes aos hospitais e algumas restrições, incluindo o preparo psicológico para a realidade da morte, o corpo deste indivíduo, ao sofrer essas mudanças e promover a integração destes novos desafios como, as doenças, o senso de inutilidade e a solidão, também podem agravar o quadro de saúde mental e promover a sua auto destruição.*******
Percebemos, portanto que, dentre a adolescência e a juventude, indivíduos de meia e terceira idade, o suicídio também tem vínculos estreitos com as etapas com que, cada um de nós enfrentamos ao longo da nossa existência, tendo em vista a maneira adequada ou não com que cada um irá lidar com esta realidade.
Entre as tipologias classificadas pelo psicanalista contemporâneo, Cristian Dunker, temos:********
Suicídio Egoísta: trata-se da morte para livrar-se da própria dor.
Suicídio Como um Ato de Vingança: aqui, alguém ou algumas pessoas fizeram mal a vítima, portanto, a ideia é de introduzir neles, uma extrema culpa e uma grande responsabilidade sobre a própria morte. Este seria o tipo de suicídio que, segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, tipificaria um ato desperdiçado deste indivíduo. Para o filósofo, se matar para ferir as pessoas em volta de si, trata-se de um ato amoral ou imoral, um ato premeditado, tanto quanto, possivelmente inconsciente que, porém, na tentativa agressiva de ferir o outro para a satisfação de um ego narcisista, perde a oportunidade de um retrabalho, de uma reabilitação. Se matar no ponto de vista de você mesmo segundo Pondé, é uma péssima escolha. Aponta para um problema psíquico que demostra a incapacidade que se tem, de lidar com o mundo, com a vida e com os outros.
Suicídio Altruísta: este tipo de suicídio, trata-se de pensar na “nobreza” do ato em si, ou seja, a intenção de não fazer mal ao outro por pura expressão de mania característica de um viés de psicopatologia mais grave que, aponta a luta por uma causa que se considere ideal que, portanto, em sua maioria, delirante – eu não posso continuar sofrendo e causando sofrimento nós outros, portanto a morte é a única saída.
Suicídio Anômico: este tipo de suicídio indeterminado e sem nome, trata-se daquele ato que se baseia, na não compreensão do mundo e nem tão pouco sobre si mesmo, então, a intenção, é, a tentativa de procurar por um lugar paralelo fora do estado de psicose, no caso, o mundo fora da própria existência, ou, o mundo dos mortos propriamente dito – “O mundo que eu quero, eu não vejo. O mundo que eu vejo, eu não quero, portanto, eu crio o meu próprio mundo.”
Suicídio Como o Reflexo da Entrada no Real: um ato concreto que, deve ser respeitado e compreendido. Bem próximo ao Anômico, está diretamente ligado a uma forte idealização do ato, baseia-se na introdução ao conhecimento mais detalhado e, portanto, também, da impressão que o sujeito tem, em relação ao outro e ao mundo. A impressão maníaca e também delirante de não ser compreendido e até mesmo escutado.
Dentre os métodos mais eficazes e comuns de prevenção e das formas de abordagem contra o ato suicida, podemos elencar:
A promoção básica da saúde mental na perspectiva da religião: Seja qual for a crença pessoal do sujeito, uma boa leitura bíblica, por exemplo, lhe dará uma referência que evitará digressões de pensamentos e o aumento característico de uma crise existencial e potencial. A ideia está, na oferta de uma única opinião assertivamente válida que possa nortear o indivíduo sem ter de ficar perdido no meio de tantas opiniões.
Entenda que o ser humano é o ser mais adaptável e capaz de contornar as próprias crises: Com todos os problemas que a vida tem e mesmo com todos os desconfortos que ela possa nos oferecer, nós somos uma espécie bastante adaptável para enfrentar estes problemas e inclusive retirar aprendizado deles.
Cuidados médicos e psicoterapêuticos e uma escuta qualificada, são muito importantes nessas horas: Conduza-se ou procure ajuda e fale abertamente sobre o assunto com uma pessoa de confiança para ajuda-lo (a) a procurar ajuda qualificada através desses profissionais da saúde e do bem-estar.
Escute; não ouça: Ouvir vem do latim audire = “ouvir”, ou seja, trata-se apenas do sentido do corpo pelo qual, há a captação sonora do lado de fora. Escutar, portanto, trata-se de uma palavra, também de derivações latinas: aus|cutare = “ouvir com atenção” – a junção da palavra “ouvir” + a expressão que se refere a “atenção”.
Quando estiver tentando tratar diretamente com um possível suicida em potencial, tenha em mente que você precisará primeiro, falar abertamente sobre o assunto sem fazer juízo do ato. Depois, compreenda que precisa entender todos os motivos, tipos e métodos de abordagem. Em última orientação, lembre-se que ouvir não significa necessariamente escutar.
Para que a sua audição seja uma escuta qualificada é necessário compreender que a sua escuta precisa ser:
1. Atenciosa: atenta e focada no indivíduo;
2. Assertiva: equilibrada, sem excessos de agressão ou passividade (sugiro uma pesquisa sobre os três tipos de personalidade: agressivo, passivo, passivo-agressivo ou assertivo);
3. Moral: que seja uma escuta focada e considerada no outro;
4. Qualificada ou Recomendada: treinada ou transferida ao profissional adequadamente treinado e habilitado para lidar com o assunto;
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* O CVV – Centro de Valorização da Vida, foi fundado em São Paulo, em 1962. Trata-se de uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, reconhecida como de Utilidade Pública Federal desde 1973. A CVV, presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio.
** Dados retirados do Gemini, Inteligência Artificial do Google – acesso em 2025.
*** Ansiedade Entre Nós – As Múltiplas faces da Ansiedade – YouTube | Alexandre Simões.
**** FREUD, Sigmund Schlomo. O Ego e o Id e Outros Trabalhos – Obras Psicológicas Completas – Volume XIX - Edição Standard. Imago Editora Ltda. Rio de Janeiro/ RJ, Primeira Edição: 1974.
***** Uma noção do supereu e das exigências externas – idem nota anterior.
****** APA – American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM 5 – Artmed Editora. Porto Alegre|RS, 5ª Edição: 2014. Pgs. 87 – 154.
******* Parte do conteúdo destes dois primeiros parágrafos, foi retirado da palestra intitulada "Velhice para que te quero?", do médico psiquiatra e psicanalista lacaniano, Jorge Forbes, cedida ao espaço cpfl cultura em SP.
******** Christian Ingo Lenz Dunker, é psicanalista e professor titular da USP - Universidade de São Paulo.